Vôos Blog(u)éticos de Ivy


"e falta sempre uma coisa, um copo, uma brisa, uma frase... E a vida dói quanto mais se goza, e quanto mais se inventa..." Fernando Pessoa

sábado, maio 11


-- Pra compensar a falta de posts --

Escritos de Nanin 35(Antônio Adriano de Medeiros)

OS DOIDOS

Os doidos são pessoas que, dizem, perderam o juízo.
O juízo é uma bola que a gente tem dentro da cabeça
e que ora cresce, ora diminui, assim como a lua,
e os doidos fingem ter sua lua minguante na cabeça,
mas na verdade eles vivem na lua cheia,
prisioneiros que são da procela de seus sentimentos.

O juízo existe pra que a gente aja com honestidade,
que é apenas a capacidade de ser verdadeiro e bom.

O juízo e a honestidade nem sempre andam juntos,
mas deveriam andar. Os doidos, me parece, são muito
honestos, e quando em contato com pessoas desonestas
fingem perder o juízo pra não perderem a delicadeza.
Andam maltrapilhos, exagerados, quase nus às vezes,
e falam coisas sem sentido só pra convencer os outros
que estes são mais importantes que eles, mas não são,
não, os loucos são a reserva de humanidade que nos resta.

A palavra Doido vem de Doído, é um sofrer que finge
apatia por delicadeza, qualquer pessoa hoje sabe disso,
mas isso só pode ter sido dito por outro doido,
porque só os os doidos criam, os que não são
doidos só fazem repetir ou querer explicar as coisas
que os doidos inventam, eles não têm coragem
ou talvez sua imaginação seja bem pequenininha,
porque o pensamento deles não é casa de passarim.

Muliquim era um doido que todo mundo tinha medo,
mas me tratava bem só porque eu chamava ele
de senhor; Xixica Doida, coitada, era uma doida
burra e tirava a roupa quando os outros meninos
a insultavam na rua, mas eu só fiz olhar pra ela
uma vez e ela se vestiu, envergonhada com meu olhar;
João Doido vivia calado e parecia raivoso, mas
um dia eu fui conversar com ele e descobri que
ele era um filósofo muito inteligente; Macho Cano
era um doido verdadeiramente lunático, tinha fases
que ficava alegre demais, outras raivoso, decerto
algumas triste, mas tem tempo que deixava de fingir
que era doido e passava a fingir que era normal.

Normal é ser anão de sentimentos, é fazer tudo
igualzinho ao que os outros fazem. O doido mais doido
que eu já vi foi um velho num teatro, um doido da gema,
ou seja um doido até no nome: seu nome por certo
era pra ser Arthur, mas ele se chamava de Artô,
Toím Artô, o doido mais arteiro que já vi. Ele disse
uma vez algo que as pessoas não têm coragem
de dizer, falando de certas profissões respeitáveis:
que era quase impossível ser profissional respeitável
e e uma pessoa honesta ao mesmo tempo.
Já notei que ele tinha razão.

Ah, vou parando por aqui, esse escrito tá muito longo,
e meio solto, parece até meio doido, mas deve
ser assim mesmo, pra poder ser verdadeiro.





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